O que estás a ler, Joana Clara?


N' O que estás a ler de hoje desafiei a Joana Clara a contar-nos mais sobre ela e sobre o que anda a ler. A Joana é uma miúda fantástica, põe coração e emoção em tudo o que faz, a sua entrevista é pois uma cópia integral do que me escreveu, pois não tive coragem de estragar a sua miscelânea emotivo-artística de palavras. Obrigada querida Joana por esta obra prima.

Quem é a Joana? 
Esta entrevista arranca com uma das maiores provocações que me podem lançar: embarcar numa autopsicografia pessoana, com bilhete direto para a minha fervorosa agitação interior. Falar sobre a Joana Clara em discurso direto é desarmante, mas é nesse plano sem chão que rapidamente coloco a descoberto um universo cósmico, repleto de múltiplos espelhos, que não se assume, de todo, como um lugar para cobardias. Aqui, há espaço para incorreções, saudades, bairrismos, batimentos cardíacos acelerados e, acima de tudo, uma profunda devoção pelas raízes da minha Oliveira, que, debaixo da Terra quente, se ramificam entre a Régua, o Alentejo, a Aldeia do Meco, a Venteira (na Amadora) e a minha Lisboa, a princesa do Tejo.

Para mim, sempre foi mais (des)comprometido falar dos outros, narrar as suas inspiradoras histórias, isto porque durante oito anos era do meu lado que estavam as perguntas, a curiosidade secreta pelas aspirações dos meus ídolos, por isso coro e torno-me uma trapalhona de primeira quando o foco está virado na minha direção. Fui jornalista durante oito anos (Rádio Renascença, Visão, Insomnia, Gerador, Epicur e O Mundo da Fotografia), e, atualmente, sou criativa, assessora e criadora de conteúdos na agência e comunicação Ellephant.

Em miúda devo certamente ter levado uma transfusão de inquietação, que bombeia todas as artérias do meu coração, porque pareço uma barata tonta quando a previsão meteorológica para o meu cérebro é de “aguaceiros fortes de ideias”. Tenho mil e uma paixões fervorosas, que vão da literatura à Sétima Arte (e, sobretudo, ao cinema francês), passando pela decoração de interiores, pela ilustração, pela astrologia, pela natureza, pela História Mundial e pela gastronomia.

Nasci em 1988, ano chinês do Dragão, do lançamento de Daydream Nation dos Sonic Youth e da medalha de ouro de Rosa Mota, na Maratona dos Jogos Olímpicos de Seul. Acredito convictamente que sou multitasking e que fui mordida, sem antídoto à vista, pelo bichinho das artes.

Tenho o ar como elemento do zodíaco e, talvez por isso, sinto que o meu caminho é feito sempre ao sabor do vento. Em 2011, criei o blogue Às Cavalitas do Vento (com migração recente para o portal Sapo) que, mais tarde, deu origem à minha conta de Instagram, o meu diário de bordo com esquissos, memórias e amores para a vida inteira. O ano passado, a dedicação ao meu trabalho no digital permitiu-me criar dois dos projetos mais especiais: o Páginas Salteadas e o Blogging For a Cause, com a Vânia Duarte (Lolly Taste), a Catarina Sousa (Joan of July), a Andreia Moita e a Helena Magalhães.
Tenho o sonho de reunir numa mesa redonda Oprah Winfrey, Stevie Nicks, Françoise Hardy, Gabrielle Aplin, Florence Welch, Afonso Cruz, Carlos Ruiz Záfon, Natalie Portman, Tim Burton e Michel Gondry. Posso acreditar com muita força, certo?



Quando descobriste a paixão pela leitura?
Eu e os livros andámos sempre de braço dado – literalmente. Podia chover a cântaros, que era ver-me, na minha pequenez física ainda que grandiosa na minha ambição de viver aventuras tamanhas nos confins das páginas, de chapéu de chuva numa mão e de livro aninhado no antebraço inverso. A leitura é um amor imenso que brotou, ainda criança, da coleção de tomos da Anita e da Heidi (oferecidos pela minha avó Tília), de edições de Alice no País das Maravilhas e de O Principezinho (li-o, pela primeira vez, com 9 anos, pela mão da minha mãe), dos vários volumes da saga Harry Potter, de J. K. Rowling, e do meu inseparável parceiro de odisseias e de questões metafísicas, o Porquê? 500 Perguntas, 1000 Respostas, da Livraria Bertrand (que me respondeu, na inocência da minha meninice, porque é que o vento sopra). A verdade é que, desde sempre, bebo as palavras dos livros que leio, deixo-as entranharem-se e viverem dentro de mim, percorrendo assim todas as vielas da imaginação. Para os blocos de notas que me acompanham, transcrevo passagens de obras literárias que exercem um inarrável magnetismo sobre mim; e, por vezes, é a elas que recorro, quando procuro uma resposta, uma catarse ou simplesmente um motivo para sorrir. Sim, os livros são excelentes conselheiros, mesmo quando apenas nos devolvem silêncios. Esses possuem também o condão de chegar ao nosso coração.

És "livromaníaca" desde que idade?
Desde a barriga da minha mãe? Ihih! Penso que a minha história de amor com a literatura teve início numa noite fria de inverno, quando eu e os meus pais regressávamos de casa da minha avó paterna. Recordo-me de ter pedido à minha mãe para fazer-me companhia no banco de trás, embrulhar-me no calor do seu regaço e contar-me uma estória que tivesse encontrado refúgio na sua infância. Foi nesse momento, cinzelado nas esquinas do tempo a flocos de neve, a cascas de laranja e a um nada que é tudo, que a minha Helena pediu emprestado o conto do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, A Pequena Vendedora de Fósforos. “O penúltimo fósforo fez com que ela visse uma linda árvore de Natal e o último trouxe-lhe o calor das mãos da sua avozinha, uma sensação de felicidade, uns suaves cantos distantes, vontade de dormir… Depois nada”. Quando recupero essas recordações, sinto que foi a primeira vez que tive contacto com a pobreza, a morte de uma criança e a felicidade de viver com pouco, sem o materialismo e o consumismo desenfreado que vejo na maioria das contas de Instagram de bloggers de lifestyle nacionais. Além disso, lembro-me de todas as noites retirar da estante cor de rosa do meu quarto O Boneco de Peluche, das Edições Majora, e As Brincadeiras da Joana, de Helen Arnold, da editora Desabrochar.    

Quando e onde lês (nos transportes públicos, à noite, ao fim-de-semana, na cama, no sofá, etc)?
Quando trabalhava em Lisboa e andava todos os dias de comboio, lia imenso durante estas viagens de 40 minutos (duração em ambos os sentidos). Hoje em dia, por trabalhar a seis quilómetros de casa, faço uma viagem de carro mais curta. No entanto, como acabo por ir no lugar do pendura, aproveito aqueles 10 minutos sem trânsito para absorver a magia das palavras que essa ampulheta me permite. À hora de almoço, aproveito para ver a luz do dia, respirar ar puro e caminhar até à paragem de autocarro dos Nirvana Studios, em Valejas, onde me sento a ler (se acompanharem as minhas Insta Stories, verão o latão esverdeado . Não só a vibe alternativa permite estimular a minha criatividade, para regressar em força à agência da parte da tarde, como consigo ouvir os cânticos dos pássaros, os badalos das ovelhas e o sopro do vento de outono. É como se estivesse perante um quadro idílico de Monet.

Gostas de ler um livro de cada vez ou vários em simultâneo?
Apesar de ter uma pilha de livros na mesa de cabeceira e na secretária do escritório, ansiosamente à espera de serem desbravados pela minha curiosidade, só consigo ler um livro de cada vez. A única exeção que abro é quando a obra do mês escolhida para o projeto Páginas Salteadas é uma que eu ainda não tenha lido. Nesse caso, tenho sempre dois volumes comigo, para ir alternando sempre que possível.

Quantos livros lês em média por mês?
A resposta a esta pergunta depende de muitas variáveis, nomeadamente do fluxo de trabalho, do cansaço psicológico e da própria trama. Neste momento, diria que leio, em média, dois livros por mês, mas já fui menina para ler uns quatro de rajada, madrugadas adentro, com os olhos a costurar mantos de retalhos graças ao poder magnetizante de citações e os dedos a dedilhar as páginas do passado de personagens que almejam vier dentro de mim.

Quantos livros é que achas que já leste na tua vida?
Sendo o mais honesta possível, não sei precisar; até porque acabo por valorizar mais o facto de já ter tido o prazer e o privilégio de me demorar no trabalho literário de Afonso Cruz, Ondjaki, Charles Dickens, Emily Brontë, Elena Ferrante, Jane Austen, Tina Vallès, Rosa Lobato de Faria e Carlos Ruiz Zafón, ou de descobrir mais detalhes acerca dos últimos czares russos – que é um dos temas históricos que mais me apaixona a nível literário. Os livros oferecem-me sensações intemporais, sem pedir mais nada em troca que os meus sentidos alerta e a minha devoção. Na verdade, eles movem-se através do tempo e chegam até mim sob a forma de sussurros mágicos, trilhando a minha pele em direção ao coração. "O amor é uma casa sem telhado, pois quando olhamos para cima vemos o céu.", cinzelou Afonso Cruz, na obra literária O Pintor Debaixo do Lava-loiças. Olhar para trás e constatar que os meus dias se vestiram com um manto de estrelas cadentes, graças a um simples livro, é uma sensação preciosa e indizível. E agora estou ansiosa que chegue a minha edição de You Get So Alone At Times That It Just Makes Sense, a minha primeira incursão no universo de Charles Bukowski (uma dica do filme Beautiful Creatures). 
      
Se fosses viver para uma ilha deserta e só pudesses levar um livro, qual seria?
Tinha de compartimentar muito bem a minha bagagem, uma vez que teria de levar dois livros comigo: A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, e O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë.

Compras todos os livros que lês, ou frequentas a Biblioteca Municipal?
Confesso que um dos meus maiores investimentos mensais é em livros, mas a verdade é que também recebo muitos exemplares de editoras nacionais com quem trabalho, como a Porto Editora, a 20|20, a Editorial Presença, a Saída de Emergência e a Penguin Random House. Durante a minha licenciatura em Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, fiz o cartão da Biblioteca Municipal Palácio Galveias, no Campo Pequeno, e requisitei imensos livros para os meus trabalhos académicos e para as minhas viagens de comboio. Foi aí que passei algumas tardes com o Orlando, de Virginia Woolf, o Oscar e Lucinda, de Peter Carey, e a Lilias Frases, de Hélia Correia. Neste momento, estou ansiosa para ter uns dias de férias e ter tempo para fazer o meu cartão da Biblioteca Ruy Belo, em Queluz.

Não se ama alguém que não lê os mesmos livros?
Ama-se. Eu gosto de livros de fantasia de J.J.R. Tolkien, J. K. Rowling, Marion Zimmer Bradley e Juliet Marillier, mas o Gonçalo olha muito mais depressa para as capas das obras deste género de literatura do que eu. Eu devoro os clássicos de literatura e o Gonçalo prefere narrativas que tenham dinossauros no elenco (nesse campo, só me entendo mesmo com O Mundo Perdido, do sir Arthur Connan Doyle). Neste momento, partilhamos o interesse pela mesma trilogia, As Aventuras de Mr. X (apresentada na última edição do Festival Mental, pelo João Tordo e pelo João Vasco Almeida), do meu querido amigo João Gato.  
    
O que estás a ler?
Um dos livros mais especiais de sempre: A Memória da Árvore, da escritora catalã Tina Vallès. Embebido em sapiência, em laços familiares indizíveis e em memórias fabricadas com o coração, ensina-nos que “o amor é o lugar onde todos nós pertencemos”, como diria Cat Stevens. 



Como descobriste este livro?
Estava a passear pelos corredores da Fnac – no dia da mesa redonda “Porquê bloggar? O que nos motiva?”, no Open Day do Armazém de Ideias Ilimitadas, no Souk – Mercado do Mundo, em Cascais –, quando o meu olhar se cruzou com a frase da capa: “A história mágica e terna de uma criança que ajuda o avô a lutar contra a perda de memória”. O meu primeiro contacto com a doença de Alzheimer aconteceu com o meu avô Carlos, que padeceu durante cerca de 18 anos desta demência e com a qual tive um contacto diário durante a minha infância e adolescência. Em 2008, um ano depois do falecimento do meu avô, fiz uma reportagem radiofónica sobre o Centro de Apoio Diurno da Associação Portuguesa dos Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer (causa que também apoiei na primeira edição do Blogging For a Cause), em Alcântara, e, no ano seguinte, venci o I Prémio de Jornalismo Universitário, na categoria de Rádio. Na altura, foi não só o jeito que encontrei de fazer o luto, como também a forma de revelar o afeto e os vínculos que se criam diariamente entre auxiliares, terapeutas ocupacionais e utentes. E sabem o que descobri? Dignidade humana, ela que também pode ajudar a atenuar a deterioração cognitiva. E é isso que, hoje em dia, procuro proporcionar à minha avó Tília, que foi diagnosticada com a mesma doença do marido, e que é uma das luzes mais incandescentes da minha vida. Este livro não surgiu na minha vida por acaso – e ainda bem que assim foi.

Recomendas?
Muito! “- Avô, o que viste? – Estou só a olhar. Não é preciso ver nada. – E a sua cara diz-me para eu guardar aquela frase, para não dizer mais nada, para olhar para cima e esperar, pois estou agora mesmo a fabricar uma recordação”. Preciso de dizer mais?


Enviar um comentário

Instagram

TODAS AS IMAGENS E CONTEÚDOS DESTE BLOG SÃO PROPRIEDADE DE CLÁUDIA GONÇALVES GANHÃO.
NÃO É PERMITIDO COPIAR OU UTILIZAR QUAISQUER CONTEÚDOS DESTE BLOG
PARA QUALQUER FINALIDADE SEM AUTORIZAÇÃO DA MESMA.
© by Cláudia Gonçalves Ganhão . Design by Fearne.