domingo, 29 de abril de 2018

A Depressão vive na porta ao lado



Todos os dias vejo aquela porta, a porta está sempre fechada, mas sinto-a do outro lado, sorrateira à espreita pelo óculo da porta, às vezes ri-se de mim, outras vezes fica em silêncio, outras vezes tenta falar comigo, mas eu ando sempre com pressa e não tenho tempo para a ouvir.
De manhã saio de casa em contra-relógio, entre um berro ou dois, depois de hora e meia de preparação, entre o toque do despertador, o banho e vestir a roupa escolhida de véspera, acordar as crianças, vesti-las, tomar o pequeno-almoço, finalizar as lancheiras, passar um pouco de base, corrector de olheiras e pó para melhorar a cara embaçada e cansada. Saímos sempre de casa com o tempo contado para chegar à escola, bato com a porta e lá está ela, sinto-lhe o cheiro, ouço-lhe o respirar. Depressa meninos que estamos atrasados e a mamã tem uma reunião! 

Durante o dia, no trânsito, entre reuniões, numa paragem no supermercado, um almoço apressado, uma consulta de rotina, uma tentativa de conversa, e outra tentativa para por os pendentes em dia lembro-me dela. O que será que está a fazer? Estará sozinha? Será que tem com quem conversar?

Rapidamente a minha atenção é desviada para outra coisa, que eu sou multi-task e esta nova coisa do mindfulness não é para mim, mais um e-mail que chega, 30 mensagem de whatsapp de uma só vez, o chefe que me liga.

Quando chego a casa, descabelada, a arrastar os miúdos, as mochilas, os sacos e a pensar no que vou fazer para o jantar, sei-a do lado de lá da porta, está mais agitada do que o costume, chegámos mais tarde por causa do trânsito, ela estava ansiosa pela minha chegada... 
Fecho a porta com força, hoje não estou com paciência para aquele jogo e é melhor mostrar-lhe já quem manda aqui! 

Cozinha, Jantar no forno, Grita pelo nome do n.º 1, Casa-de-Banho, Despe, Banho, Quarto, Veste, Repete, Cozinha, Põe a mesa, Grita a chamar para jantar, Jantar, Gritos, Discussões, Arrumar a cozinha, Preparar o dia seguinte, Quarto, Brinca, História, Adormece, Acorda, Escolhe as roupas do dia seguinte, Preparar tudo para o dia seguinte, Liga o computador, Responde aos emails urgentes, Responde aos whatsapp's e sms do dia, Ronda pelas redes sociais, Quarto, 2 página de um Livro e enquanto cai literalmente para o lado ainda pensa na vizinha da porta ao lado, e diz: Amanhã digo-lhe bom dia.

Trimmmmmm é de manhã e começa tudo outra vez.

E lá vivem as duas, lado-a-lado, uma sempre à espera de uma aproximação e a outra sempre a correr, sem tempo, sem disponibilidade para si quanto mais para uma vizinha que mal conhece e pensando bem de quem até tem um bocadinho de receio. É melhor fingir que não sabe que ela está ali ao lado, assim pode ser que ela mude de residência e a deixe de a atormentar. 
Vão se consumindo uma à outra, até ao dia em que a vizinha deixa só de espreitar abre a porta e a engole de vez...

* Uma homenagem a todas as mulheres (e homens) que diariamente lutam e sobrevivem aos sintomas de depressão, de esgotamento, de cansaço crónico, dizem-nos frutos dos tempos modernos, eu digo que é um preço muito alto a pagar. 

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