Ao tema livre para esta 7ª semana do CPR - Reanimação da Escrita escrevi um texto de nome: Sou da Serra. Espero que gostem!
O meu nome é Zé, nasci numa aldeia perto da
Serra, era Janeiro e fazia frio, aquele frio cortante da Serra. A minha mãe de
seu nome Maria pariu-me em casa, eu era o quinto filho daquela mãe parideira e
nascer em casa com a ajuda das vizinhas era o normal.
Cresci com frio, numa casa de pedra numa
aldeia perdida na Serra, quinto filho de uma equipa de nove. Passei fome, andei
descalço, perdi muitas horas com o rebanho no cume da Serra, perdi outras
quantas horas na Escola Primária da aldeia onde aprendi a juntar as letras em
palavras e a contar as cabeças do rebanho.
Os dias, os invernos e os anos assim
passaram todos iguais.
Tinha 16 anos quando saí pela primeira vez
desta Serra. Apanhei a locomotiva na estação dos caminhos-de-ferro, desci até à
cidade e apaixonei-me por aquela máquina infernal, pelos vagões, pelos carris,
pela paisagem e pela liberdade de poder descer da Serra sempre que quisesse,
sem ter de esperar mais 16 anos.
E foi nessa viagem que decidi.
Cheguei a casa e à hora da janta anunciei:
Pai, mãe, meus irmãos, vou deixar a aldeia, vou deixar o rebanho e vou ser
maquinista! Disse-o de cabeça baixa e sem os conseguir encarar.
Um silêncio sepulcral invadiu a divisão.
Desconfiança, dúvida, medo.
Eu era o primeiro da família a tomar essa
decisão, a ter a coragem, a ir embora, a deixar a aldeia, a serra, o rebanho, a
ordenha, a lavra.
Levantei a cabeça, e grossas lágrimas
escorriam do rosto cansado da minha mãe. Meu pai na sua austeridade mastigava o
jantar, a sua expressão mantinha-se inalterada, meus irmãos não se mexiam.
Eu estava mais gelado do que nunca.
Como um trovão, a sua voz inundou a
divisão:
- Zé, meu filho, se achas que é esse o teu
caminho, que a locomotiva é a tua casa, vai!
Com um nó na garganta, só consegui
articular um: sim Pai!
Foi a vez do choro da mãe invadir a divisão
enquanto se levantava da mesa, abriu a porta da rua e saiu para a noite fria de
outono.
Pedi licença ao meu pai para sair da mesa,
sei como ele é exigente com a nossa presença à mesa das refeições.
Quando sai para o exterior descobri o vulto
da minha mãe ao fundo do quintal, desci a ladeira.
Como gosto de si minha mãe.
Abracei-a, beijei-lhe o rosto e
tranquilizei-a o melhor que pude.
No dia que fiz 17 anos parti da Serra, para
ir fazer o curso de maquinista. Na mala de cartão levei as minhas roupas, uma
foto de família, pão e queijo da serra para a viagem. Deixei para trás mãe, pai
e 8 irmãos.
Hoje 20 anos depois sou o maquinista da
locomotiva que me levou da Serra e esta locomotiva todos as quinzenas me
devolve à serra, ao frio, à nossa casa da aldeia, aos braços da minha mãe, aos
silêncios do meu pai, às risadas dos meus irmãos e da sobrinhagem que por lá
cresce.
Casei com ela, a locomotiva, com o seu
ronco, 20 anos pelos socalcos das montagens deste nosso centro, umas quantas
idas ao Entroncamento, outras à Campanhã e outras ao Rossio. Mas não consigo
estar muito tempo sem lá ir, sem sentir o frio, o cheiro e o amor daquela
Serra, daquela casa e daquela gente, a minha gente.
Sou da Serra.


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